Depois do secundário, muitos jovens deixam as suas terras para estudar em grandes cidades como Lisboa ou Porto. Nos últimos anos, porém, cresce o número de quem faz o caminho inverso: regressar a cidades médias como Bragança para trabalhar e viver. Entre o custo da habitação, a tranquilidade e a proximidade à família, os motivos são variados e, para muitos, decisivos.
Aos 29 anos, Maria Cortez não imaginava regressar tão cedo a Bragança. Licenciada e mestre em Gestão pela Universidade do Porto, via o seu futuro em empresas da Baixa portuense. Uma proposta de emprego na cidade onde cresceu mudou o rumo. “Disse muitas vezes que não ia trabalhar em Bragança, mas percebi que podia crescer depressa e com qualidade”, conta, entre um ensaio de coro e a preparação de uma aula no seu pequeno estúdio de yoga.
Hoje, é colaboradora numa empresa de consultoria e dá apoio a estudantes transmontanos através de uma associação inspirada em “De Trás-os-Montes às Grandes Escolas”. “Vi logo que não me ia aborrecer aqui”, explica, salientando a rede de associações e os eventos que enchem os fins de semana. Muitos amigos que foram para Coimbra, Porto ou Lisboa começam a regressar, em busca de tempo e de uma rotina menos exigente.
“Prefiro escolher a intensidade da cidade do que ser escolhido por ela.”
A frase é de António Landim, 26 anos, que trocou a azáfama de Lisboa pelo regresso à sua origem. Viveu entre Lisboa e Madrid, concluiu uma formação profissional em dança e licenciou-se em Urbanismo, mas decidiu voltar em janeiro. “Seis anos de cidade cansam; precisava de qualidade de vida, uma cidade à medida das pessoas”, afirma. Trabalha na Câmara Municipal como técnico de operações urbanísticas, mas mantém a ligação aos palcos, com residências artísticas no Porto e colaborações em colectivos independentes. O objetivo é criar pontes: “Quero ligar o que é urbano ao que é rural, para que mais gente descubra o potencial daqui”.
Um imobiliário mais acessível
Com 26 anos, Elisa Lemos atingiu um marco que muitos só alcançam anos depois: foi nomeada diretora de um jardim-de-infância em Vinhais. O salto teria sido difícil em Porto ou Lisboa. “Lá, esta progressão demoraria muito mais e a colocação raramente é no sítio que queremos”, sublinha. Após a licenciatura dividida entre Bragança e Braga, e um mestrado em Ensino, a decisão de regressar estabilizou a sua vida. “Aqui, a habitação é viável e consigo ter uma casa que na cidade grande era impensável”, diz. Nota, sim, uma oferta cultural mais curta, mas não vê isso como barreira: “É com participação e projetos que se preenche o que falta”.
As histórias de Maria, António e Elisa convergem numa ideia simples: cidades médias oferecem oportunidades reais, e não um regresso ao passado. Falam de carreira, de equilíbrio entre trabalho e vida pessoal, e de impacto na comunidade. Falam, sobretudo, de escolha.
Porque regressar?
- Custo de vida mais equilibrado e habitação mais acessível.
- Tempos de deslocação curtos e menos stress diário.
- Proximidade a família, amigos e redes de apoio.
- Natureza à porta e melhor qualidade ambiental.
- Internet de alta velocidade e trabalho híbrido cada vez mais viável.
- Espaço para criar projetos e crescer mais depressa.
Do lado da Câmara
Para a autarquia, o regresso de jovens qualificados é uma oportunidade estratégica. “Os nossos alunos vão para Lisboa, Porto ou estrangeiro, e queremos que voltem”, afirma o vice-presidente com o pelouro do Ensino Superior e Juventude. O município trabalha na revisão do PDM, na requalificação de zonas empresariais e na melhoria de transportes e serviços. Há uma aposta na acolhimento de famílias, com apoio à empregabilidade do cônjuge e oferta escolar sólida. “Quando os jovens regressam, frequentemente querem criar família; ter bons liceus e escolas é crucial”, defende o autarca.
No terreno, a colaboração com o Instituto Politécnico de Bragança é cada vez mais estreita. Cursos ligados à biotecnologia, ao digital e ao agroalimentar têm forte taxa de inserção, muitas vezes no próprio território. Formar aqui é aumentar as probabilidades de que aqui se construa um futuro.
Uma tendência que ganha força
O acesso à habitação é motor de atração. Em grandes metrópoles, comprar ou arrendar tornou-se um desafio para jovens quadros. Em Bragança, a relação entre salário e custo da casa é mais favorável, e as oportunidades de progressão não ficam atrás, sobretudo em áreas com necessidade de talento. Os dados municipais já mostram saldo positivo: mais profissionais qualificados a entrar do que a sair.
O que começa como um regresso “para experimentar” transforma-se, muitas vezes, em projeto de vida. Entre a calma dos montes e a dinâmica de novos negócios, estes jovens provam que a periferia pode ser centro de inovação. E que “ter tempo” — para criar, para cuidar, para viver — é um argumento tão forte como qualquer salário.
