O vento corta a pele na manhã fria de Lisboa. À porta de um centro de dia, um miúdo de cinco anos e meio aperta os dedos, sem luvas, e diz baixinho que tem as mãos a doer. A mãe agarra-lhe o casaco, mais curto do que devia, e sorri para que ele não chore. Dormiram debaixo de um toldo em Santa Apolónia, encolhidos, em cima de papelões e de um cobertor rasgado.
No bolso, um pacote de bolachas baratas. O pequeno chama-se Fallou, nasceu de um caminho longo, feito entre a esperança e os papéis que nunca chegaram. Quer ir à escola, brincar ao pé do Tejo, aprender a escrever o próprio nome sem tremer de frio.
Uma infância à mercê do frio
A cidade com luz de postal esconde sombras fundas. Entre prédios renovados e hotéis novos, há crianças que passam noites à rasca. O frio nos ossos não é só temperatura: é a falta de abrigo, o medo de ficar sem o pouco que resta.
Fallou gosta de contar as pombas da estação e de fazer carros com tampas de garrafas. Mas as mãos geladas não obedecem, e o sorriso quebra-se ao primeiro arrepio. À noite, a mãe alinha sacos como se fossem almofadas, inventa uma cama onde só há chão duro.
Respostas de emergência que não chegam para todos
No fim da tarde, numa associação de bairro, junta-se quem tenta segurar o mundo com as duas mãos. Empurram carrinhos com cobertores, termos de chá e uma lista de contactos para “noites de emergência”. Há um armazém cedido por uma empresa, em Marvila, que abre depois das oito e devolve as chaves ao amanhecer, para que a vida comercial retome.
“Hoje conseguimos cerca de 130 camas e um pequeno-almoço para famílias, mulheres sozinhas e raparigas jovens”, explica a coordenadora, Ana Correia. “Além disso, recorremos a vagas solidárias em casas de particulares que abrem um quarto. Todas as noites ponderamos cada situação, a idade das crianças, a saúde, os percursos. E de manhã, começam tudo de novo.”
A equipa fala baixo, para não acordar quem já adormeceu. No canto, uma menina penteia a boneca com um garfo, como quem escreve um conto só com gestos. Um voluntário repara no casaco do Fallou, pergunta a calçar e veste-lhe um par de meias por cima das mãos.
O ciclo que se repete todos os dias
Ao romper do dia, as famílias saem em fila, discretas como sombras. Levam mochilas com roupa mista, uma maçã e o número de um balneário onde podem tomar duche. O espaço volta a ser escritório, a limpeza apaga os traços da noite, e a vida apressa-se como se nada fosse.
Para muitos, a cidade parece dizer “voltem mais tarde”. O ecrã do telemóvel anuncia vagas que se esgotam em minutos. O autocarro atrasa, o emprego informal não espera, o dinheiro não chega para renda ou caução. E sem morada, não há documentos; sem documentos, não há trabalho. O círculo fecha-se onde começou: no frio.
Entre o cuidado e a política
Os voluntários insistem que a solidariedade é ponte, não estrada principal. É preciso mais respostas públicas, habitação de transição, equipas de rua com psicólogos e mediadores culturais. “Não podemos normalizar que uma criança acorde a trocar meias por luvas”, diz Ana. “Não é caridade, é direito.”
As escolas tentam manter as portas abertas, com refeições, apoio e sinalização discreta. Vizinhos organizam recolhas de agasalhos, criam redes de quartos livres e partilham bilhetes de transportes. A cidade mexe-se, ainda que aos solavancos, entre o improviso e a vontade.
O que pode mudar já
- Reforço de equipas de rua com abordagem 24/7, incluindo apoio psicológico e tradução comunitária.
- Contratos-piloto de habitação de transição com rendas tampão e acompanhamento familiar.
- Simplificação de processos para atribuição de NIF e acesso a saúde e educação.
- Creches e ATL com vagas de prioridade para famílias sem abrigo.
- Linhas de financiamento para associações com prestação de contas transparente e metas públicas.
“As luvas que faltam”
“Tenho as mãos frias porque não tenho luvas”, repete o Fallou, agora com meias às mãos. O sol sobe tímido no céu de inverno, e a manhã traz um cheiro a pão quente de uma padaria próxima. A mãe agradece com um aceno, guarda metade para logo, a outra metade para depois.
Não é só sobre luvas, nem só sobre o inverno. É sobre a cidade que queremos, uma Lisboa que seja mais que postal: que seja casa. Uma cidade onde um miúdo aprenda a escrever o nome sem tremores, e onde a frase “tenho as mãos frias” seja apenas um acaso, não um destino. Porque, para quem tem cinco anos e meio, a infância devia ser feita de risos, não de frio nos dedos.
