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Polémica em Oeiras: festival de música tira o sono a milhares de moradores

Antes do arranque, dúvidas e alertas

A primeira edição do festival caribenho One Love, marcada para 6 e 7 de setembro de 2025 no Parque do Tejo e Trancão, entre Loures e Vila Franca de Xira, começou sob um clima de desconfiança. Autarcas e associações de moradores alertaram que o evento foi preparado com pouca antecedência, sem um plano robusto de mobilidade e mitigação de ruído. A organização respondeu com promessas de controlo sonoro e horários mais curtos, garantindo que tudo estava “dentro da lei”.

Um fim de semana movido a decibéis

As garantias, porém, convenceram poucos. Durante dois dias, o som projetado sobre o estuário do Tejo repercutiu nas urbanizações da Póvoa de Santa Iria, de Alverca e de Alhandra, gerando queixas por nuisâncias sonoras. Nas redes sociais, multiplicaram-se relatos de janelas a vibrar e crianças sem dormir. Vários residentes usaram aplicações de decibelímetros e reportaram valores elevados.

“Medimos 80 decibéis dentro da nossa sala às 19h30. As paredes tremiam”, contou Ana M., moradora na Póvoa de Santa Iria. “Não é ser contra a cultura, é querer respeito pelo direito ao descanso.”

Carta e exigências às entidades gestoras

Na segunda-feira, deu entrada uma carta da Associação de Moradores do Vale do Trancão dirigida à Câmara Municipal e à empresa gestora do Parque do Tejo. O documento denuncia “um nível de incómodo inaceitável” e pede medidas imediatas de contenção sonora.

Entre as propostas dos moradores:

  • Limites de decibéis vinculativos e fiscalização independente.
  • Encerramento musical até às 22h sem exceções.
  • Barreiras acústicas viradas para as zonas residenciais.
  • Calendário anual com consulta pública prévia.
  • Plano de mobilidade com reforço de transportes e menos engarrafamentos.

“Se o Parque quer ser palco de grandes eventos, tem de garantir condições para quem vive à volta”, lê-se na carta.

Próximos eventos sob escrutínio

Com um festival de rock anunciado para o final de setembro no mesmo local, autarcas querem garantias de que o cenário não se repete. “Aceitamos música, recusamos excesso”, disse um responsável municipal, lembrando que houve famílias que “tiveram de sair de casa durante a tarde”. A Polícia Municipal confirmou um plano reforçado de fiscalização e medições em tempo real.

Desporto perdeu espaço em 2025?

A polémica reacendeu outro debate: a anulação do tradicional triatlo de Vila Franca em 2025. A organização lamenta o cancelamento por razões económicas, dizendo que, em dias de portaria paga, o evento força entradas alternativas e reduz receitas do parque. “Promovemos a base de lazer, trazemos clubes, enchemos o campismo. É um contrassenso”, afirma um dirigente. A gestão responde com contas: “Num fim de semana de maio fizemos 25 mil euros, 20 mil só em entradas. Não podemos ignorar essa realidade. Se for fora do período pago, somos os primeiros a acolher.”

Queixas alastram a outras freguesias

No domingo à noite, a Junta de Freguesia de Alhandra publicou um esclarecimento: “O ruído que ouvem não resulta de nenhuma rave na mata. Trata-se de um festival a decorrer no Parque do Tejo e Trancão.” A nota pediu calma, prometeu reportar às entidades competentes e recordou que a música teria de terminar às 22h.

O local certo para este formato?

Para uma autarquia vizinha, o parque “não se presta a este tipo de eventos de grande porte” se não houver investimento em mitigação. “Não podemos ter uma motivação apenas financeira”, lê-se numa posição pública que menciona “episódios de desordem” e a necessidade de “verdadeira concertação” intermunicipal. A crítica ecoa entre moradores que defendem uma programação mais equilibrada, com formatos de menor impacto.

Organização defende-se e fala em balanço positivo

A entidade gestora assume que houve incómodo, mas sublinha que os horários foram cumpridos. “A música parou às 22h nas duas noites, algo pouco comum em festivais deste género”, refere fonte oficial. O promotor reforça que o dispositivo técnico esteve dentro dos limites e que houve coordenação com as forças de segurança.

“Desde o início, parecia que íamos montar uma rave, quando o evento foi altamente estruturado”, afirmou um produtor. “O objetivo é dar vida ao parque, que enfrenta desafios financeiros. Falar em droga e violência sem dados é profundamente injusto.”

Edição de 2026 em aberto

Se haverá segunda edição em 2026, a resposta fica em aberto. A gestão diz que vai “avaliar com calma” os dados de impacto e as reclamações. “Em princípio não estamos contra, mas só com compromissos claros de redução de ruído e melhor planeamento”, adiantou uma fonte ligada ao processo. Para já, os residentes pedem que a energia dos palcos não se transforme em pressão diária sobre quem vive nas margens do Tejo.


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