Há dois anos, a prometida requalificação do Quarteirão Z na Baixa de Coimbra transformou-se numa espera sem fim, com tapumes, pó e um vazio que corrói o dia a dia. No cruzamento da Rua Ferreira Borges com a Rua Visconde da Luz, o estaleiro está parado, e a incerteza cresce a cada semana. O que era para ser uma obra de dois anos, com um pequeno prédio de dez fogos de habitação acessível, ficou suspenso entre licenças, relatórios e silêncio institucional. Para quem trabalha ali, o tempo não só passou — ele custou clientes, receitas e confiança.
“Temos uma rua bloqueada há um ano e meio”
À frente da loja de pronto‑a‑vestir Para ou Continua, Sofia Machado olha todos os dias para os escombros e para a promessa que não se cumpre. “Desde junho, não apareceu mais ninguém no estaleiro”, desabafa a comerciante, visivelmente cansada da espera. “Dizem que a paragem agora é por causa de um prédio ao lado, mas ninguém explica nada com clareza”, acrescenta, num misto de frustração e descrença. O acesso está condicionado, a rua ficou barrada e o percurso natural dos visitantes desvia-se do coração comercial.
Um impacto direto no comércio local
Ao longo de meses, a loja de Sofia somou uma quebra de 30% no volume de negócios, um golpe duro num setor já pressionado pelos custos e pela concorrência online. Os turistas, que costumam animar a Baixa no verão, evitaram a zona, empurrados pelos andaimes e pelas fitas de segurança. Mesmo os clientes habituais perderam a paciência com desvios e barreiras que parecem não ter fim. “Não conseguimos aguentar muito mais tempo assim”, admite a lojista, que sente a vida do bairro a esvair-se.
Promessas públicas e um vazio de respostas
O projeto foi anunciado com pompa: habitação a preços controlados, comércio no rés‑do‑chão e um quarteirão revitalizado, devolvendo movimento à Baixa. A empreitada, a cargo de uma empresa municipal de habitação e parceiros privados, deveria reerguer duas frentes de rua e dar novo fôlego à economia local. Hoje, o que existe são tapumes gastos, buracos expostos e pareceres técnicos que se acumulam sem calendário definido. A Câmara pede paciência, mas a cidade sente urgência e carece de clareza.
Problemas técnicos, custos crescentes
Segundo moradores e lojistas, a paragem terá sido motivada por dúvidas sobre a estabilidade de um edifício contíguo e por ajustes no projeto estrutural. O que era custo previsto transformou‑se em contas que disparam com a inflação da construção e novas exigências de segurança. Entre perícias, seguros e concursos que podem ter de ser repetidos, o relógio gira contra o tecido económico local. Quanto mais se adia, mais o buraco financeiro e urbano se alarga.
Uma ferida aberta na Baixa
Além do ruído intermitente, a friche tornou‑se ponto de degradação, com grafitis aleatórios, lixo e uma sensação de abandono. O piso irregular, as baias metálicas e os tapumes altos alimentam o medo de quem passa ao fim da tarde. Moradores notam o efeito dominó: menos movimento, mais lojas a fechar as portas e montras vazias. A cidade histórica perde vitalidade quando um quarteirão inteiro fica suspenso.
O que pedem os lojistas
Para Sofia e outros comerciantes, há medidas simples que podem mitigar o prejuízo enquanto a obra não arranca. As prioridades, dizem, são objetivas e de baixo custo político:
- Reabertura parcial e segura do passeio para restituir o fluxo de peões.
- Limpeza regular do estaleiro e remoção de detritos visíveis da rua.
- Calendário público com fases, prazos e responsáveis identificados, atualizado mensalmente.
- Sinalética clara com percursos alternativos e informação em inglês e espanhol.
- Um pequeno fundo de compensação para cobrir perdas diretas durante interrupções prolongadas.
Transparência como antídoto
A falta de informação é, para muitos, pior do que o atraso em si. Uma comunicação regular, com atas, relatórios e visitas abertas ao estaleiro, poderia reduzir boatos e recuperar a confiança. O diálogo entre Câmara, empreiteiro e moradores deve ser contínuo e documentado, com metas e marcos verificáveis. Sem isso, cada mês fechado cheira a oportunidade perdida.
Exemplos que inspiram soluções
Outras cidades portuguesas passaram por situações semelhantes e avançaram com soluções pragmáticas. Em reabilitações complexas, fases curtas e entregas parciais permitiram reabrir passeios e manter a economia de proximidade a funcionar. Corredores técnicos bem vedados e horários de obra previsíveis reduziram conflitos e incómodos. O essencial é combinar segurança com circulação, em vez de paralisar toda a frente urbana.
Um apelo que vai além de uma loja
“Não pedimos milagres”, diz Sofia, com um olhar que mistura determinação e cansaço. “Só queremos trabalhar com a rua viva, com gente a passar e a entrar nas lojas.” O apelo resume o desejo de muitos: devolver normalidade a um bairro cuja força sempre esteve no encontro entre moradores, estudantes e visitantes. Quando o comércio fecha, a cidade perde mais do que vendas — perde laços e rotinas que fazem a vida acontecer.
Entre o hoje e o amanhã
A Baixa de Coimbra já viu crises, cheias e obras intermináveis, mas também renascimentos teimosos. O Quarteirão Z pode voltar a ser referência, com habitação digna e montras acesas, se houver direção firme e prazos cumpridos. Enquanto isso, cada gesto de manutenção e abertura parcial é um passo contra a inércia. O tempo da cidade não espera: ou se age já, ou a ferida alonga‑se e o coração comercial bate cada vez mais baixo.
