Nos últimos meses, um túnel muito frequentado no centro de Lisboa transformou‑se num ponto de encontro de consumidores de crack. Para quem mora nas imediações, a rotina passou a ser feita de medo e de sobressaltos, com relatos de conflitos, lixo e consumo à vista de todos. “Parecem quase animais, andam semi‑nus e há agressões entre eles e contra quem passa”, desabafa uma moradora, pedindo anonimato.
Um foco crescente no coração da cidade
O Túnel do Marquês tornou‑se, segundo os moradores, um espaço de permanência e de consumo a qualquer hora. “Estão muito intoxicados”, diz outra residente, descrevendo a circulação de grupos e a sensação de insegurança diária. Perante o aumento de episódios, a PSP tem aconselhado cautela e reforçado a vigilância nos acessos.
Há quem fale em “centenas de pessoas” a ocupar o espaço, um número difícil de confirmar, mas que traduz a perceção de um problema que se adensou no último ano. Nas ruas adjacentes, comerciantes apontam para quedas nas vendas e para a necessidade de fechar mais cedo, por receio de assaltos e confrontos em plena via pública.
Moradores organizam‑se e exigem respostas
Fartos do que consideram ser uma “normalização da degradação”, os moradores criaram um coletivo e lançaram uma petição dirigida à Câmara Municipal de Lisboa. O documento, com várias centenas de assinaturas, pede medidas imediatas de segurança e de saúde pública, lembrando que há escolas e paragens de autocarro a poucos metros.
“Queremos soluções que protejam quem vive aqui e que ajudem quem está em dependência”, afirma um porta‑voz do grupo, que recusa uma leitura apenas punitiva do fenómeno. Para os signatários, a cidade precisa de respostas integradas, que desalojem o consumo do espaço público e ofereçam alternativas concretas de tratamento.
Entre as propostas, destacam‑se:
- Reforço de policiamento de proximidade e presença 24 horas no túnel.
- Iluminação mais forte e limpeza frequente das áreas de passagem.
- Equipa fixa de redução de riscos e primeiros cuidados.
- Instalação de casas de banho públicas e contentores de resíduos.
- Encaminhamento rápido para alojamento temporário e consultas de tratamento.
Autarquia e autoridades falam em abordagem “a duas mãos”
A autarquia garante que a Polícia Municipal e a PSP estão “muito presentes” na zona, com patrulhas a pé e viaturas de apoio a circular nos horários de maior pressão. “Não há apenas resposta policial”, afirma fonte oficial do município, sublinhando o trabalho com a ARS Lisboa e Vale do Tejo e com equipas de rua especializadas em dependências. “Acompanhamos as pessoas para cuidados de saúde, tratamento e abrigo, ao mesmo tempo que devolvemos tranquilidade ao bairro.”
Segundo a PSP, têm sido realizadas “dezenas de operações” desde o início do ano, com detenções por tráfico, apreensões de crack e dispersão de pontos de consumo. Nos últimos dias, a presença de viaturas junto às entradas do túnel trouxe algum alívio aos moradores, embora muitos temam que a situação se desloque para ruas vizinhas.
Saúde pública no centro da discussão
Especialistas lembram que o crack é uma substância de forte impacto, com consumos rápidos, maior risco de sobredosagem e problemas de saúde mental agravados pela vulnerabilidade social. Equipas de redução de riscos distribuem material, prestam apoio psicossocial e encaminham para consultas, tentando quebrar ciclos de violência e de exclusão.
O SICAD tem alertado para a necessidade de respostas contínuas e coordenadas, do momento da abordagem de rua à entrada em tratamento e ao acompanhamento habitacional. Sem dados definitivos sobre o número de consumidores concentrados no centro de Lisboa, técnicos sublinham que a pressão urbana torna mais visível o que é, antes de tudo, uma questão de saúde pública e de direitos humanos.
“Não podemos ignorar nem criminalizar a miséria”, diz uma técnica de intervenção local. “É preciso garantir segurança no espaço público e, ao mesmo tempo, portas abertas para cuidados e estabilidade.” Para os moradores do Túnel do Marquês, a urgência é dupla: recuperar a vivência do bairro e evitar que mais vidas se percam, todos os dias, debaixo do mesmo teto de betão.
