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Extraordinário! Mergulhador português descobre o maior tesouro de sempre ao largo do Algarve

As águas claras do litoral algarvio continuam a revelar segredos bem guardados do nosso passado. Um mergulhador recreativo, explorando o fundo marinho ao largo de Tavira, deparou-se com um conjunto monumental de mais de 30 000 moedas antigas, um achado que especialistas já classificam como o maior tesouro numismático de âmbito mediterrânico alguma vez identificado por investigadores em território português. Datadas entre 324 e 340 d.C., as peças emergem como uma janela rara para a transição do Baixo-Império romano para as dinâmicas que moldaram o mundo bizantino.

Um cofre de bronze aberto pelo acaso

A maioria das moedas foi cunhada em bronze e cobre, exibindo um estado de conservação fora do comum. A estabilidade das correntes locais e o soterramento parcial por areias finas criaram um microambiente que protegeu as superfícies e as inscrições. Graças a essa preservação, é possível observar pormenores de iconografia imperial, legendas nítidas e marcas de oficina que ajudam a reconstituir as rotas monetárias da época.

Estas moedas correspondem sobretudo a follis, um tipo introduzido no período romano tardio e amplamente utilizado durante séculos no Mediterrâneo. Para Marta Antunes, da Direção-Geral do Património Cultural, trata-se de uma “descoberta numismática maior, pela quantidade, pela qualidade e pelo contexto marítimo excecional”. A leitura das gravuras oferece uma perspetiva direta sobre políticas fiscais, distribuição soldádica e investimentos em infraestrutura tardo-romana.

Entre anfôras e correntes: pistas de um naufrágio antigo

A disposição concêntrica das moedas no leito marinho e a presença de fragmentos de ânforas de gargalo estreito, com duas asas, apontam para um carregamento disperso a partir de um ponto central. A hipótese mais forte é a de um navio mercante que, ao navegar entre as rotas que uniam as províncias hispânicas ao grande eixo tirreno, terá sofrido um sinistro próximo das passagens do Guadiana. Este corredor, a meio caminho das redes que ligavam Gades (Cádiz), Ossonoba (Faro) e Cartago Nova (Cartagena), articulava trocas de metais ibéricos, azeite, vinho e cerâmica de larga escala.

Os investigadores veem neste padrão um fragmento de um circuito económico mais complexo do que se supunha para o século IV. Se confirmado o naufrágio, a embarcação poderia integrar uma frota de cabotagem que alimentava guarnições costeiras, cidades portuárias e entrepostos fiscais espalhados por pontos-chave do ocidente romano. “Cada moeda funciona como um ponto de dados; juntas, traçam um mapa de fluxos, oficinas e prioridades do Estado”, sublinha a arqueóloga subaquática Joana Ribeiro.

Ciência, património e cooperação internacional

O impacto científico do achado vai muito além da numismática, cruzando história económica, arqueologia naval e metalurgia. O estudo das ligas, por exemplo, pode indicar a origem dos minérios e aferir decisões de abastecimento tomadas por oficinas imperiais em Antioquia, Roma, Sirmium ou Arelate. Em paralelo, a identificação de emperramentos, remendos ou pregos no material cerâmico colateral ajudará a caracterizar o tipo de navio, a tripulação e os hábitos de armazenagem.

A escala da descoberta justifica um programa coordenado entre a Universidade do Algarve, a DGPC e redes internacionais de arqueologia subaquática. Protocolos de escavação metódica, registo fotogramétrico e conservação em ambiente controlado serão cruciais para preservar a legibilidade das superfícies e travar a corrosão por cloretos. O objetivo é conjugar rigor científico com devolução pública, por via de exposições, repositórios digitais e ações educativas junto das comunidades locais.

Próximos passos no fundo do mar

Para os próximos meses, as equipas anunciaram um plano faseado de intervenção, combinando mergulho técnico, sonar de varrimento lateral e magnetometria. O desenho do campo de dispersão, aliado a análises isotópicas e a leituras estatísticas, deverá estreitar hipóteses sobre a data do sinistro, o porto de partida e o destino final. O sítio, entretanto, encontra-se sob vigilância e proteção legal reforçada, prevenindo pilhagens e intrusões.

Principais linhas de trabalho:

  • Mapeamento integral do sítio e localização do possível casco em estrutura de madeira preservada por sedimentos finos e de baixa oxigenação.
  • Análise metalográfica para determinar composição, origem das ligas e variações de oficina ao longo das emissões.
  • Estudo comparativo com tesouros coevos de Espanha, França e Norte de África, visando padrões de circulação e hoarding.
  • Reconstituição das rotas mercantis entre a Lusitânia e o coração administrativo do Império.
  • Modelação naútica do acidente, cruzando paleocorrentes, batimetria e meteorologia histórica.

O valor patrimonial é imenso, mas o seu significado cresce na medida em que é estudado de forma transparente e partilhada. A comunidade científica espera que este tesouro, nascido de um encontro fortuito entre um mergulhador e a História, se transforme num laboratório vivo de arqueologia marinha. Mais do que um conjunto deslumbrante de objetos, é um arquivo denso de informação sobre como navegávamos, comerciávamos e financiávamos a construção do mundo romano.

Ao revelar o brilho antigo destas pequenas peças de bronze, o mar do Algarve lembra-nos que ainda há muitas histórias por contar no grande palco ibérico do Mediterrâneo. E que cada descoberta, por mais improvável, pode reordenar mapas, cronologias e perguntas que cremos já ter resolvido.

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