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“É um orgulho enorme ter conseguido”: escondido no mato e por entre os campos, foi assim que este agricultor alentejano se tornou o único a estacionar o trator em frente à Assembleia da República

A subida a Lisboa dos agricultores portugueses, indignados com a gestão da dermatose nodular contagiosa e com o acordo Mercosul, não se fez sem obstáculos. Entre bloqueios policiais, despachos administrativos e quilómetros de desvios, apenas um trator conseguiu estacionar frente à Assembleia da República, no coração de São Bento. O protagonista foi Tomás Paredes, agricultor transmontano, que transformou uma viagem improvável num símbolo de persistência e de voz coletiva.

O transmontano que estacionou em São Bento

À chegada, o trator de Tomás tornou-se ponto de convergência. À sua volta, juntaram-se colegas que tinham vindo de carro ou que ficaram retidos nas portagens e nos nós da AE, impedidos de prosseguir pelas autoridades. Uns poucos tratores circularam nos arredores, mas só o de Vila Real cortou a meta junto às escadarias de São Bento. “É um orgulho ter conseguido”, confessou, com um sorriso curto e cansado, antes de sublinhar que não se tratou de um feito pessoal, mas de um gesto para “defender o nosso trabalho e os nossos valores”.

Muitos tratores não conseguiram chegar ao destino.
Facebook – 47 Coordination rurale

A imagem do trator solitário frente ao Parlamento soou como uma campainha de alerta. Não foi uma manobra de vaidade, dizem os que o acompanharam, mas um sinal de que o país rural não aceita mais silêncios. Entre cartazes improvisados e bandeiras, ecoavam palavras de ordem contra a pressão de custos e a incerteza que a DNC e o dossiê Mercosul lançam sobre a fileira agrícola.

Jogo do gato e do rato nas estradas

Tomás partiu ainda de madrugada, em caravana com outros agricultores, e depressa se deparou com controlos da GNR e com proibições de circulação de máquinas agrícolas em diversos troços. Onde muitos viraram atrás, ele sacou do mapa de estradas secundárias e cortou por onde havia terra batida. Em vez das vias rápidas, preferiu curvas de serra e caminhos ladeados por muros de xisto, ganhando minutos aqui e acolá, sempre atento ao rádio e às mensagens dos colegas.

Numa paragem forçada perto de um pinhal, escondeu o trator sob a sombra densa, desligou tudo e dormiu uma sesta de duas horas. Regressou ao volante com os faróis apagados, numa noite sem lua e com frio cortante, escutando cada motor que se aproximava como se fosse o do azar. Ao longe, via-se o clarão azul de pisca-piscas; ao perto, só a poalha levantada pelos pneus e o cheiro a gasóleo insistente.

Ruelas certas para o lugar certo

À entrada de Lisboa, a tática manteve-se: nada de radiais, nada de eixos onde a PSP montou barreiras. O roteiro fez-se de bairros, ruelas estreitas e mudanças constantes de ritmo. Campo de Ourique, Estrela, São Bento. Sempre devagar, sempre decidido, sempre com alguém a avisar, por telefone, onde estavam os próximos bloqueios. Outros tentaram o mesmo, mas ficaram presos em rotundas, confundidos por desvios e pelo trânsito compacto da manhã.

Quando o trator parou junto às grades do Parlamento, havia alívio e uma pontada de incredulidade. Alguns turistas ergueram telemóveis, os polícias trocaram olhares práticos e chamaram reforços, enquanto um pequeno grupo de agricultores batia palmas curtas, discretas, como quem sabe que a vitória é frágil.

Porquê arriscar: DNC e Mercosul

Para quem vive do campo, a dermatose nodular contagiosa não é um jargão técnico: é um risco que ameaça rebanhos, planeamentos e rendimentos. A doença, que afeta sobretudo o gado bovino, obriga a custos acrescidos em biossegurança, vacinação e movimentação condicionada. Ao mesmo tempo, o dossiê Mercosul faz pairar a sombra de uma concorrência com padrões distintos e preços imparáveis.

Tomás resume sem rodezios: “Não pedimos privilégios; pedimos regras claras, preços justos e a certeza de que o esforço de quem produz não é descartável.”

O caderno de reivindicações, partilhado por associações e cooperativas, aponta exigências concretas:

  • Mais rapidez e clareza nas medidas de sanidade animal e nas compensações.
  • Controlo rigoroso de importações com critérios ambientais e sociais equivalentes.
  • Redução de burocracia e simplificação de licenciamentos no setor.
  • Apoio a combustíveis profissionais e eletrificação de operações agrícolas.
  • Valorização dos produtores nas cadeias de distribuição e nos contratos de fornecimento.

Um símbolo que pede diálogo

A imagem do trator sozinho em São Bento não resolve dossiers, mas abre portas a conversas que tardavam em começar. Ninguém ignora a necessidade de equilíbrio entre compromissos internacionais e proteção do mundo rural, mas a equação não se fecha sem ouvir quem planta e colhe. O gesto de Tomás, entre ruelas, campos e matas, não foi um truque de impacto; foi a prova de que a perseverança ainda encontra caminho quando a política fecha portas.

“É um orgulho ter chegado”, repetiu ele, antes de ligar o trator e preparar-se para sair, tal como entrou: devagar, atento, e com a mesma ideia fixa de que o campo só se cala quando é realmente escutado. Entre aplausos breves e ordens secas, ficou no ar a sensação de que, por uma manhã, Lisboa ouviu o silvo de um motor que falou mais alto do que muitos discursos.

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