Colheita perdida e lixo espalhado
Durante quase duas semanas, cerca de 200 caravanas de uma comunidade itinerante estacionaram num prado agrícola nos arredores de Santarém, deixando um rasto de detrítos e uma colheita arrasada. À primeira vista, o terreno parece limpo, mas bastam alguns passos para surgir metal entre a erva, pedaços de plástico retorcido e restos calcinados de fogueiras. Para quem vive da terra, cada objeto esquecido no campo é um risco para o gado e para as máquinas agrícolas.
Os proprietários contam que não podem fazer a ceifa: qualquer lata ou arame escondido no feno pode ferir as vacas e danificar a embaladora. A passagem repetida de viaturas abriu trilhos no solo, baixou a pastagem e partiu ramos de árvores nos limites das parcelas. Em vários pontos, a relva terá ficado queimada por detergentes despejados diretamente no terreno durante as lavagens.
“Ficámos sem apoio e com a colheita perdida”, desabafa um dos agricultores, apontando para as marcas fundas deixadas no prado. “Não é só o lixo; é o mês de trabalho deitado fora e a incerteza do que ficou enterrado no chão.” No final do verão, em vez de fardos prontos a armazenar, sobra uma conta que ninguém quer pagar.
Autoridades de “mãos atadas”
Os agricultores dizem ter alertado de imediato a GNR e a Câmara Municipal, mas garantem que a resposta foi “lenta e ineficaz”. A presença era ilegal, porém a retirada exige procedimentos formais e decisões que nem sempre são rápidas. “Fomos deixados sozinhos”, afirma outro proprietário, que pondera avançar com uma queixa contra a alegada inação das entidades.
Do lado da autarquia, a explicação sublinha os limites legais de atuação e a necessidade de autorização judicial para uma desocupação forçada. “Temos de cumprir a lei: há direitos de mobilidade e garantias que o Município deve respeitar”, diz uma fonte municipal, lembrando que, sem uma ordem específica, os serviços pouco podem fazer. Entre a denúncia e a decisão, passam dias que, no campo, valem dinheiro e custam rendimento.
Um problema recorrente, soluções escassas
Nos últimos anos, a mobilidade sazonal de grupos viajantes tornou-se mais visível em zonas de cultivo, especialmente onde existem prados e acessos fáceis a vias principais. Portugal tem instrumentos de planeamento que recomendam áreas de passagem temporária, com condições mínimas de saneamento e gestão de resíduos. Porém, quando surge um terreno com critérios adequados, a resistência local cresce e o dossiê fica bloqueado.
“Quando encontramos um local potencial, a população é contra e o executivo municipal receia o conflito; como fazemos então?”, questiona a mesma fonte, defendendo um diálogo prático entre câmaras, forças de segurança e associações comunitárias. Sem alternativa organizada, a ocupação de campos privados repete-se e os prejuízos multiplicam-se. É um ciclo de tensões que raramente acaba com uma solução duradoura.
Voz do campo: custos que ficam na terra
A limpeza do prado não se resume a apanhar sacos e garrafas: é preciso peneirar o solo, retirar ferros invisíveis e garantir que não ficam risco para o gado. Cada semana de atraso na ceifa desvaloriza o feno e compromete o inverno do efetivo. “Quem paga o tempo, o combustível e o reboque para levar tudo ao ecoparque?”, pergunta um produtor de leite, habituado a margens de lucro cada vez mais curtas.
Os seguros raramente cobrem danos desta natureza sem um processo extenso e provas complexas. E, mesmo com provas, recuperar o valor da colheita perdida é uma corrida morosa. “O que se perde em confiança e tranquilidade não volta na mesma época”, resume o agricultor, já a planear uma rotação de culturas para tentar salvar o ano.
O que pedem os agricultores
- Definição de áreas de passagem temporária com serviços de saneamento e recolha de resíduos.
- Procedimentos de resposta mais rápidos e protocolos de mediação com forças de segurança.
- Fundos de compensação imediata para prejuízos comprovados no setor agrícola.
- Campanhas de sensibilização para regras de convivência e proteção do ambiente.
- Fiscalização de acessos a terrenos privados e reforço da sinalização preventiva.
Entre direitos e deveres, um equilíbrio por cumprir
Conciliar o direito à mobilidade com a proteção da propriedade e do trabalho agrícola é um desafio que exige mais do que reação. Implica planeamento intermunicipal, recursos logísticos e uma cultura de responsabilidade partilhada. Onde existem rotas previsíveis, a identificação de zonas seguras e legalmente claras reduz o conflito e protege o campo.
Enquanto esse equilíbrio não chega, multiplicam-se os casos de prados inutilizados, máquinas danificadas e rendimentos cortados. “Queremos respeito e regras que valham para todos”, insiste um dos produtores, com o olhar preso na pastagem amassada. Sem apoio efetivo e sem vias legais céleres, o preço fica no solo — e a conta vai bater à porta de quem nos alimenta.
