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Choque e revolta em Lisboa: mesmo à porta da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, traficantes impõem a sua lei a estudantes e moradores

A poucos metros da Faculdade de Economia e Gestão, no ISEG, em Lisboa, o quotidiano tornou-se um percurso de medo e de pressão. Estudantes e moradores dizem que os traficantes “mandam” no espaço público, ocupando escadarias, paragens e entradas de prédios. Apesar das patrulhas regulares, a sensação de impunidade mantém-se e o bairro de Santos vive num estado de alarme contido.

Um antigo painel de azulejos, na rua íngreme que conduz ao campus, foi coberto por tags, ao lado de uma porta agora murada. A imagem tornou-se um símbolo de cerco: grades, cadeados e portas fechadas para impedir intrusões. Todos os dias, agentes da PSP acompanham idosos até aos transportes, para evitar abordagens e furtos. A insegurança está instalada há anos, com ciclos de repressão e recomeço.

Rotina sob tensão

Na mudança de turno, entre aulas e estágios, os estudantes dizem ouvir a lista de estupefacientes cantada em voz alta: “liamba, cocaína, crack”. “É uma pressão constante, sobretudo ao fim da tarde”, relata um aluno de mestrado. A proximidade de bares, paragens e escadinhas cria pontos de concentração onde as abordagens são sistemáticas.

“Os estudantes recebem propostas sempre que passam e muitos evitam estas ruas,” afirma João Figueiredo, presidente da associação académica do ISEG. “Tememos que um olhar trocado ou uma palavra mal interpretada chegue para um conflito.” O ambiente pesa na assiduidade e no bem-estar psicológico, com relatos de faltas e ansiedade.

Serviços públicos desencontrados

Os moradores falam em labirinto institucional. Entre Junta de Freguesia da Estrela, Câmara Municipal de Lisboa, PSP, Ministério da Administração Interna e Área Metropolitana de Lisboa, as competências cruzam-se e as decisões arrastam-se. A cada incidente, multiplicam-se pedidos, emails e reuniões sem resultados duradouros.

“Vemos operações pontuais, mas falta uma estratégia comum”, lamenta Marta Esteves, presidente da Associação de Moradores de Santos-o-Velho. “Há demasiados níveis a decidir e pouco orçamento onde é mesmo preciso. Enquanto se negoceia, a vida no bairro degrada-se.” Entre resíduos, ruído e ameaças, dizem sentir-se cada vez mais encurralados.

Universidade sob vigilância

Para travar intrusões, a faculdade instalou pórticos e reforçou a segurança. A entrada exige identificação, os vigilantes circulam pelo campus e as portas secundárias ficam trancadas. Professores ajustam horários para evitar saídas tardias e pedem que as turmas se desloquem em grupo ao final do dia.

A sensação de cerco tem custos académicos: aulas noturnas com menos alunos, eventos cancelados e estágios encurtados. “Queremos proteger a comunidade, mas não podemos transformar a escola numa fortaleza”, reconhece um responsável administrativo. A universidade pede medidas coordenas que ultrapassem os muros do campus.

Polícia e tecnologia sem efeito

A PSP mantém patrulhas diárias e a Polícia Municipal reforçou equipas ao final da tarde e início da noite. Câmaras de videovigilância foram instaladas, mas os dispositivos são repetidamente vandalizados. Os dealers deslocam-se por vielas e escadinhas, antecipando rotas e explorando pontos cegos.

“É um jogo do gato e do rato”, descreve um agente, pedindo anonimato. Sem uma intervenção integrada — social, sanitária e urbana —, as rusgas geram apenas uma pausa breve. As estruturas de apoio a toxicodependentes estão lotadas, e a rua volta a ser o palco principal.

O que propõem moradores e alunos

  • Mais presença coordenada entre PSP e Polícia Municipal nos pontos críticos.
  • Reforço de iluminação, limpeza e manutenção de escadarias e largos.
  • Equipa de mediação social com técnicos de rua e psicólogos.
  • Acesso rápido a tratamento e programas de redução de riscos.
  • Plano de habitação e apoio a pessoas em situação de sem-abrigo.
  • Reposição e proteção de câmaras com manutenção contínua.
  • Calendário de obras para eliminar becos e entradas abandonadas.

“Se cada serviço atuar por sua conta, nada muda,” insiste Marta Esteves. “Precisamos de uma resposta única, com prazos e responsáveis.” O recado ecoa entre os moradores e quem estuda no bairro: segurança, sim, mas aliada a políticas que reduzam o problema na origem.

A poucos passos do Tejo, a vida universitária não pode ser refém da rua. O equilíbrio entre firmeza policial e apoio social decidirá o futuro destas ruas. Enquanto isso, estudantes e vizinhos reclamam poder voltar a atravessar a porta principal sem baixar os olhos, sem acelerar o passo, sem negociar com o medo.

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2 comentários em “Choque e revolta em Lisboa: mesmo à porta da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, traficantes impõem a sua lei a estudantes e moradores”

  1. É isso que dá ter votado no PS , fronteiras abertas, sem controle e critérios. A única saída nesse momento e votar no #Chega, ou isso vai só piorar.

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  2. Qual a dificuldade em acabar com esta cambada? A polícia não pode atuar fardada mas sim á paisana para não dar oportunidade a que esta escumalha anteveja a sua presença. Limpar sem piedade e não ligar ao que dizem aqueles que não se sentem incomodados com a situação.

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