Desde junho de 2025, moradores sem‑abrigo têm-se reunido à porta de um supermercado de bairro, em Porto, a poucos metros de uma estação de metro. Pedem dinheiro, comida ou bebida, quase sempre de forma educada, mas por vezes surgem incidentes que deixam o pessoal da loja em alerta. A equipa diz estar exausta e tem chamado com frequência a polícia, além de informar a Câmara Municipal.
Uma situação que não abranda
Ao longo do verão, os grupos foram crescendo e a presença tornou-se mais constante. Em alguns dias há apenas duas pessoas, noutros chegam a ser sete, o que intensifica o desconforto de clientes e vizinhos. “Tentamos manter o diálogo, mas a pressão diária é difícil de gerir”, desabafa um co‑gerente do estabelecimento.
A direção decidiu restringir a venda de álcool a quem entra já visivelmente embriagado, uma medida pensada para prevenir conflitos. Mesmo assim, há quem peça a clientes para comprar bebidas por conta deles, o que torna o controlo muito mais complexo.
Portas reforçadas e vizinhança em tensão
Num prédio contíguo, os moradores instalaram um código de acesso após vários episódios de ocupação do alpendre em dias de chuva. O espaço foi encontrado sujo, com marcas de fumo e pequenos danos nas áreas comuns, segundo relata uma condómina. “Há caras que já reconhecemos, mas outras aparecem e somem, o que dificulta qualquer acompanhamento”, comenta o responsável da loja.
Também se multiplicam relatos de abordagens até às paragens de metro, onde alguns tentam vender objetos de baixo valor. Um morador conta que lhe quiseram revender comida que outro cliente tinha acabado de oferecer no supermercado, uma situação que gerou desconforto geral.
“Estamos a fazer o melhor que podemos, mas a equipa está no limite da paciência”, afirma uma funcionária, pedindo mais presença policial e respostas sociais. “Não se trata de diabolizar ninguém; queremos segurança para todos e soluções com dignidade.”
Câmara e polícia procuram respostas
Quando o diálogo falha, a gerência chama a PSP, que dispersa os grupos mas enfrenta o retorno cíclico dos mesmos. A autarquia confirma que tem sido alertada para situações de estagnação, consumo de álcool na via pública e pequenos distúrbios. Segundo um adjunto com o pelouro da segurança, foram mobilizadas equipas de mediação de rua para encaminhar pessoas para apoios.
O município reconhece um problema de capacidade nas respostas de acolhimento, agravado por trajetórias de saúde mental fragilizadas e rendimentos instáveis. A falta de vagas em centros e abrigos temporários limita o acompanhamento, sendo preciso reforço de meios por parte do Estado. Enquanto isso, medidas de proximidade procuram mitigar o impacto no bairro e reduzir conflitos no espaço público.
- Reforço de patrulhamento da PSP e da polícia municipal
- Ações de mediação para encaminhamento para alojamento
- Fiscalização da venda e consumo de álcool em redor da loja
- Coordenação com IPSS e equipas de saúde de rua
- Diálogo regular com comerciantes e moradores vizinhos
No terreno, os trabalhadores do supermercado tentam conciliar a rotina com a pressão exterior. A loja adotou procedimentos mais assertivos à entrada, reforçou a vigilância e procura manter a área limpa e segura para os clientes. “Quando corre bem, há respeito mútuo; quando corre mal, somos nós que levamos com a frustração de todos”, diz o co‑gerente, pedindo um plano mais estruturado.
Entre vizinhos, há quem defenda uma abordagem equilibrada, que una segurança e inclusão. É consenso que a solução precisa de coordenação entre entidades públicas, setor social e comerciantes, evitando respostas apenas punitivas. A longo prazo, sublinham técnicos, serão cruciais caminhos de habitação acessível, apoio psicológico continuado e portas de emprego.
Enquanto isso, o bairro tenta recuperar um cotidiano mais tranquilo, sem perder o foco no humano. O objetivo é que o espaço público seja partilhado, com regras claras e apoio real a quem mais precisa, reduzindo conflitos e devolvendo confiança à comunidade.
