Uma apreensão de grande dimensão junto a Valença do Minho travou a entrada em Portugal de cocaína avaliada em cerca de 25 milhões de euros. Em operações separadas, realizadas a 5 e 7 de setembro, duas equipas conjuntas da Autoridade Tributária e da GNR imobilizaram dois camiões de longo curso que seguiam pela A3, vindos de Espanha, e descobriram centenas de “tijolos” de cocaína ocultos no piso das reboques. A Polícia Judiciária, através da Unidade Nacional de Combate ao Tráfico de Estupefacientes, assumiu a investigação, sob direção do Ministério Público.
Operação na fronteira do Minho
Segundo fonte oficial do Ministério Público, a droga estava “acondicionada em centenas de pacotes e dissimulada em compartimentos criados no pavimento das reboques”. Os veículos, registados em país do Leste da Europa, eram conduzidos por dois homens, de 41 e 38 anos, que foram detidos, presentes a primeiro interrogatório judicial e ficaram em prisão preventiva. Em conjunto, as duas ações permitiram intercetar 262 kg e 360 kg de cocaína, volumes que, uma vez queimados, representam um golpe significativo nas redes transnacionais.
“As estruturas criminosas recorrem a veículos de matrícula estrangeira, a rotas variáveis e a sistemas de ocultação cada vez mais elaborados”, acrescentou a mesma fonte, sublinhando que a intervenção no Alto Minho foi possível graças à partilha de informação com parceiros espanhóis.
Como operava a rede
As primeiras diligências apontam para um circuito logístico com origem na Península Ibérica, passagem por postos fronteiriços de baixo perfil e distribuição em vários pontos da Europa Ocidental. A escolha da A3 e dos acessos em Valença não é casual: trata-se de um corredor rápido, com intenso tráfego comercial, onde os camiões se diluem no fluxo diário.
- Carga ilícita: cerca de 622 kg de cocaína em dois carregamentos.
- Método de ocultação: compartimentos no piso das reboques.
- Valor de mercado: próximo de 25 milhões de euros.
- Interceção: operações coordenadas na A3, junto à fronteira.
- Destino provável: distribuição para Portugal e restante UE.
A PJ está a analisar registos de GPS, folhas de rota, documentação de carga e comunicações encriptadas, para identificar quem financiou, quem recebeu e quem ordenou as modificações nas reboques. As autoridades suspeitam de uma estrutura em rede, com células especializadas em falsificação documental, adaptação de veículos e lavagem de capitais.
Redes adaptam-se aos controlos
A tendência recente confirma uma mudança de tática: com controlos reforçados em portos como Roterdão e Antuérpia, as organizações deslocam uma parte do fluxo para rotas terrestres entre Espanha e Portugal, explorando fronteiras internas do espaço Schengen. Em paralelo, medidas mais apertadas em portos nacionais, como Sines e Leixões, levaram os traficantes a apostar em cargas de menor volume, mas com maior frequência, de modo a reduzir o risco de perdas catastróficas.
“A droga, acondicionada em centenas de ‘tijolos’, estava dissimulada no piso das reboques de camiões”, frisou uma fonte policial, enfatizando a sofisticação dos esconderijos e a profissionalização das redes. A PJ sublinha que a capacidade de adaptação é elevada e que o combate exige investigação financeira, cooperação internacional e tecnologia de raio-X e análise de risco cada vez mais fiável.
Investigação sob alçada do DCIAP
O processo está a cargo do Departamento Central de Investigação e Ação Penal, com colaboração de equipas da PJ no Norte e do Laboratório de Polícia Científica. Foram emitidas cartas rogatórias e pedidos de cooperação a Europol e Eurojust, visando mapear a cadeia de abastecimento, os pontos de armazenamento e os intermediários financeiros. Estão em causa os crimes de tráfico de estupefacientes agravado, associação criminosa e branqueamento de capitais.
Em agosto, uma ação distinta da GNR e da PJ já tinha travado um camião proveniente de Espanha, apreendendo mais de uma tonelada de cocaína no interior de uma carga lícita. Esses casos, embora autónomos, mostram aquilo que as autoridades designam como “pressão constante” de redes que testam rotas, horários e modos operandi para furar a vigilância.
A escalada das apreensões
As forças de segurança admitem um aumento expressivo nas apreensões de cocaína em território nacional, alinhado com a tendência europeia. Sem avançar números definitivos, a PJ fala em volumes “recorde” e em cargas cada vez mais fragmentadas, o que torna a deteção mais difícil. O foco, reforça a investigação, passa por:
- Cortar os fluxos financeiros que sustentam a logística criminosa.
- Intensificar a análise de risco em fronteiras e portos.
- Partilhar inteligência com parceiros europeus e sul-americanos.
- Desmantelar as oficinas que modificam camiões e reboques.
Para já, os dois detidos permanecem sob medida de coação mais gravosa, enquanto os peritos avançam com exames aos veículos, às cargas e aos dispositivos de ocultação. A operação deixa uma mensagem clara: perante redes que se reinventam, a resposta terá de ser coordenada, tecnológica e persistente.
