Aninhado entre cristas abruptas na zona mais sossegada do Gerês, este vale remoto era, até há pouco, um reduto para quem procurava solidão e céus escuros. Muitos caminhantes escolhiam aquele recanto para uma noite tranquila longe de luzes e de vozes. Agora, porém, a pernoita foi proibida, e o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF) evita explicar o motivo.
Nos abrigos improvisados e nas clareiras onde se montavam tendas, surgiram placas novas e discretas, avisando que está vedada qualquer pernoita. Nos portais de reservas de refúgios, desapareceu a referência aos pequenos abrigos que guardavam o vale. A mensagem é clara, ainda que lacónica.
“Proibida a pernoita além deste ponto — por ordem do ICNF.”
Para quem conhece a serra de olhos fechados, o silêncio oficial soa a mistério. Há perguntas, há suspiros, e há cada vez menos respostas.
Um refúgio de montanha, de repente interdito
O vale — conhecido entre montanheiros como Covão Encoberto — fica para lá das lombas da Serra Amarela, por trilho não marcado e rio de leito pedregoso. Não constava dos roteiros de turismo, mas era carta batida dos que preferem granito, vento e aves.
Quem lá chegava falava de penhascos, de cervos a atravessar clareiras, e da Via Láctea a cortar o céu como uma lâmina fria. Havia quem voltasse todos os anos, sempre entre o primeiro frio e a última geada.
“Era daqueles lugares que não contamos a toda a gente”, confidencia o Rui, montanheiro de Braga, que lá dormiu uma dúzia de vezes. “Sem multidões, só o silvo do vento e os estrelos.”
A explicação oficial — ou a falta dela
Questionado sobre a decisão, o ICNF remeteu uma curta nota por escrito: “A pernoita no Covão Encoberto está suspensa por razões de segurança e avaliações ambientais em curso.” Pedidos de detalhe — derrocadas, erosão, fauna sensível? — ficaram sem resposta.
Em conversa reservada, uma fonte próxima da gestão do parque diz apenas que “há mais coisas a considerar do que podemos tornar públicas neste momento”. O comentário adensou a névoa e alargou o campo da especulação.
Teorias e um mal‑estar que cresce
Nas aldeias do sopé e nos grupos de montanhismo, multiplicam-se as teorias. Uns apontam para instabilidade do terreno, outros falam de achados culturais, e não faltam vozes que evocam razões mais intangíveis.
- Alguns sugerem uma recente série de pequenos e, por vezes, impercetíveis, movimentos de vertente, agravados por chuvas intensas.
- Outros acreditam que foi identificado um sítio arqueológico de relevância, possivelmente com gravuras rupestres ou estruturas pastoris antigas.
- Há quem murmure sobre a presença de espécies protegidas em época de nidificação, com destacamento especial para o britango e o lobo‑ibérico.
- Uma minoria fala de uma espécie de interdição comunitária, um acordo tácito para deixar o vale em paz, após relatos de noites estranhas no verão passado.
“Sei apenas que alguns saíram de lá… diferentes”, diz a Teresa, antiga guarda de um refúgio da zona. “Um rapaz calou-se por dias. Disse que se sentiu ‘observado’ a noite toda.”
As autoridades silenciam as hipóteses, não as confirmam, e também não as desmentem. O resultado é um espaço onde os sussurros viajam mais depressa do que as notas oficiais.
O que está em jogo
Para os caminhantes, a questão é tanto de segurança como de transparência. Se o problema for erosão, ajustam-se rotas e horários com prudência. Se for fauna sensível, aceita-se o fecho sazonal. Se houver património cultural, protege-se com respeito e perímetro claro.
As empresas de guias temem o impacto nos calendários e nas receitas de inverno. As aldeias próximas receiam perder o tímido mas importante gasto dos visitantes que pernoitavam, jantavam, e compravam pão e queijo ao final da tarde.
“Uma boa gestão precisa de confiança”, resume um autarca local. “Sem informação, sobra desconfiança e triplica a improvisação.”
Vai reabrir?
Por agora, o vale mantém-se aberto apenas para uso diurno — sem bivaque, sem montagem de tenda, e nada de ficar depois do pôr‑do‑sol. Ao cair da tarde, equipas discretas fazem patrulhas e convidam quem carrega mochilas volumosas a recuar. É uma presença silenciosa, mas firme, que afasta tudo o que lembre pernoita.
Para um lugar célebre pela calma das noites de inverno, o Covão Encoberto ficou mudo de outra maneira. A estrada de terra termina, o som do rio amortece, e o eco que sobra não é o do vento, mas o das perguntas que ninguém responde.
Até que o ICNF fale com clareza — com datas, critérios e razões bem fundamentadas —, os montanheiros ficam entre mapas antigos e trilhos incertos. Alguns aceitarão a espera, outros virarão a página, e uns quantos continuarão a olhar, ao longe, para a dobra sombria da serra, a imaginar o que é que, ali, já não quer companhia à noite.
