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À beira do colapso: Prisão de Caxias enfrenta superlotação recorde e insegurança alarmante

Um barril de pólvora à beira de rebentar

Na manhã de quarta-feira, uma coluna de fumo negro encobria a entrada do Estabelecimento Prisional de Caxias. Guardas prisionais ergueram um bloqueio simbólico, com pneus ardidos, para denunciar um quadro que dizem já ser insustentável. Faltam efetivos, sobram agressões, e a sobrelotação atingiu, segundo sindicatos, níveis recorde e perigosos.

O protesto juntou centenas de profissionais, que exigem respostas imediatas. “A insegurança cresceu e o material está obsoleto”, afirmam, apontando para sistemas de alarme defeituosos e uma gestão considerada pouco sensível ao terreno. O ambiente, relatam, é de exaustão e medo.

“A segurança partiu-se”

Segundo fontes sindicais, Caxias opera muito acima da sua capacidade, com alas onde três reclusos partilham celas pensadas para dois. “A densidade prisional já não é apenas um número, é um risco diário”, resume um dirigente do setor. “A segurança partiu-se e ninguém consegue trabalhar assim.”

“Temos turnos desfalcados, equipamentos de comunicação que falham e uma pressão constante sobre equipas cansadas”, acrescenta o mesmo responsável. “As agressões verbais tornaram-se rotina e as físicas, infelizmente, são cada vez mais frequentes.”

Rotina em tensão permanente

Nos pátios de recreio, as brigas são descritas como quase diárias, com grupos a envolverem-se em confrontos rápidos e brutais. Os guardas, sem meios suficientes, veem-se muitas vezes reduzidos a conter e a esperar por reforço. “Não estamos armados, e eles arranjam lâminas artesanais e telemóveis que escapam às revistas”, lamenta um agente.

Dentro das celas, as dinâmicas de domínio agravam o clima de ameaça. Reclusos mais vulneráveis tornam-se alvo de coação, guardando objetos ilícitos ou servindo de mensageiros. “Sem pessoal suficiente, não há controlo eficaz”, resumem.

Impacto humano em espiral

A sobrecarga pesa sobre a saúde mental de todos, alertam equipas clínicas e sindicais. Há relatos de burnout, licenças de baixa prolongadas e sinais de desmotivação. “Quando a rotina é medo, o erro torna-se mais provável”, nota um psicólogo ligado ao sistema.

Entre os reclusos, acumulam-se histórias de isolamento e desespero, típicas de espaços sobrelotados. Organizações independentes têm alertado para o risco de autolesões e de tragédias evitáveis, pedindo intervenção estruturada e rápida.

O que está em causa e o que se pede

Os sindicatos entregaram um caderno de reivindicações, com medidas de choque mas também estruturais. Exigem respostas claras do Ministério da Justiça e da DGRSP, sob pena de manterem ações de protesto graduais.

Entre as prioridades imediatas, os profissionais pedem:

  • Reforço de efetivos e reposição de turnos mínimos
  • Manutenção urgente de sistemas de alarme e rádios
  • Limite temporário de entradas, com gestão ativa da lotação
  • Separação de perfis de risco e reforço da vigilância
  • Apoio psicológico regular a equipas e reclusos
  • Investimento em infraestruturas e modernização tecnológica

Gestão, responsabilidade e soluções

A crítica não se dirige apenas à falta de meios, mas ao estilo de gestão considerado “pouco colaborativo”. Guardas narram episódios em que, após incidentes, a primeira reação foi culpar a equipa em vez de analisar processos. “Sem liderança presente, nada muda”, insistem.

Especialistas em políticas criminais defendem um pacote de medidas articuladas: uso criterioso de prisão preventiva, maior recurso a alternativas penais e revisão de fluxos entre tribunais e prisões. “Reduzir a pressão de entrada e aumentar a capacidade de saída com acompanhamento real é essencial”, sugerem.

Respostas oficiais e próximos passos

A tutela promete “avaliar soluções” e reforçar meios em breve, mas sem calendário definido. No terreno, a paciência é curta e cresce o receio de mais incidentes graves. “É só uma questão de tempo se nada for feito”, alertam os guardas.

Para já, as equipas mantêm serviços mínimos, mas insistem num diálogo urgente e consequente. “Queremos trabalhar com segurança e garantir direitos básicos a quem cumpre pena”, dizem. “Sem isso, todo o sistema fica fragilizado e a comunidade, mais insegura.”

“Não pedimos milagres”, conclui um dirigente sindical. “Pedimos condições para proteger quem serve e quem está sob a nossa guarda. Sem respostas, a tensão continuará a crescer.”

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